O casal de estátuas

 "Dezoito e três!!!", pensei ao ver a aula de português ultrapassar o horário. Saí correndo do curso, torcendo todos os dedos para o ônibus 627 já ter chegado ao ponto final e não estar lotado.
Para minha sorte, ele estava quase lotado, com três bancos da parte traseira vagos. Sentei-me entre duas senhoras, uma que encarava o nada (e espero que não esteja espiando o que escrevo no meu celular neste momento) e outra que mexia no seu próprio aparelho telefônico.
"Ótimo! Nenhum assaltante à vista!", pensei animada ao abrir a mochila, tirar meu celular e colocar Vanessa da Mata para tocar.
Ao olhar para frente, no entanto, vejo um casal no banco posterior se beijando. Não, posando de se beijar.
"Como assim?", você, leitor, pode me perguntar. Eles estavam literalmente parados com os lábios uns nos outros em uma mistura de manequin challenge com vamos-fazer-a-porra-do-ônibus-inteiro-pagar-de-vela challenge. Mas o melhor (ou pior) é que eles se afastavam toda vez que o ônibus andava e voltavam para a mesma posição toda vez que voltava a estacionar.
Não quero pagar de crítica de beijo, mas em meio àquela constrangedora situação de não ter para onde olhar, o único pensamento que me vinha à mente (além de desejar secretamente que os dois fossem ser felizes longe de mim, como disse a Dani enquanto mandava-lhe mensagens sobre a situação) era "por quê?". Por que a brincadeira de estátua? Por que ali em um lugar público? Por que logo na minha frente?
Os "por quês", afinal, foram o que me tiraram de meu estado de constrangimento. Ri sozinha:
"Daria uma boa crônica..."
E aqui estou eu, meus anjos, no meio das duas senhoras, ambas ainda exectutando as mesmas atividades de antes (não, a senhora que encarava o nada ainda não está olhamdo para minha tela) com a diferença de o ônibus ter enchido e o casalzinho se ater de bom senso e deixar a diversão à lá museu pra depois.
Ah! Eles vão saltar! E daqui a pouco serei a próxima. Pararei por aqui para não me distrair e perder o ponto. Adeus!

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